Balanços... e perspectivas !


Com o iminente arquivamento da primeira década do terceiro milênio, muitos institutos de pesquisa apresentam os balanços do período. Têm estatísticas para todos os interesses e todos os gostos. Entre elas é possível escolher os temas de interesse pessoal ou de maior impacto no imaginário coletivo.

Eu proponho de examinar e confrontar dois “valores” concorrentes: a cultura do consumismo econômico e a cultura da qualidade de vida (ou do bem-estar). Os indicadores econômicos encontram a sua expressão no PIB nacional que mede a riqueza produzida pelas forças econômicas num determinado País. Estes indicadores são aceitos pela comunidade científica e bem suportados pela ciência estatística.

Ao contrário, os indicadores de “qualidade de vida” são de incerta definição e aceitação. De fato, é mais mensurável a “quantidade” que a “qualidade” de um objeto ou de uma experiência existencial. E, contudo, a quantidade sem a qualidade dificilmente nos faz felizes! Isto vale em qualquer experiência humana. Portanto, se os indicadores econômicos são eficazes para medir, com boa aproximação, a produção da riqueza, os mesmos são ineficazes para avaliar se a mesma produz ou não uma melhor qualidade de vida.

Ampliando o quadro de análise, parece aceitável a proposição de que a avaliação da realidade econômica de um País não é suficiente para aferir como os seus cidadãos vivem e qual é qualidade de vida de que podem desfrutar. Para avaliar o nível de qualidade de vida e de bem-estar é preciso utilizar outros critérios ou “indicadores sociais”, tais como: sociedade e relações sociais; política e sistema democrático; ética e responsabilidade pessoal e social; eficiência dos serviços básicos de saúde e instrução, desempenho do sistema judiciário, etc. Para exemplificar: a desigualdade econômica implica desigualdades de chances em relação à formação escolar e às profissões mais lucrativas; a mesma desigualdade implica condições menos seguras de existência, por exemplo: morar em áreas mais poluídas ou mais conflituosas. Além disso, a desigualdade econômica tem implicações graves sobre a alimentação, a moradia e a saúde das pessoas...

Diante destas problemáticas, muitos analistas e algumas forças políticas estão chegando à conclusão de que o PIB não pode ser mais aceito como um indicador universal para apreciar a realidade social na sua complexidade. Por isso está surgindo uma nova metodologia de avaliação que atribui um valor eqüitativo aos bens materiais e aos bens imateriais! Na Itália, o Istat (correspondente do IBGE) decidiu de aplicar em uma área piloto novos critérios de análise para avaliar a qualidade de vida da população residente. Alguns dos critérios de avaliação são: a qualidade dos serviços oferecidos à população; a qualidade das infra-estruturas e do meio ambiente; as oportunidades que a área oferece aos cidadãos em relação ao trabalho, ao comércio, à cultura e ao lazer; a qualidade da segurança e das relações sociais, etc.

Há quem sugere a criação de um “Dow Jones” dos valores a partir do pressuposto de que uma sã economia exige uma cultura da legalidade, do respeito dos direitos humanos, da igualdade dos cidadãos, da honestidade da classe política e dos governos nacionais. Estes autores defendem a tese de que as instituições funcionam bem e melhor na medida em que os cidadãos desenvolvem uma cultura política fundada na valorização do capital social, que se materializa no relacionamento respeitoso dos direitos dos concidadãos, no senso cívico e no respeito pelas instituições, na moralidade privada e pública, e na justiça social.

O instrumento principal de promoção de uma cultura da qualidade de vida é, -fácil de dizer -, a educação dos jovens cidadãos ao respeito de si e do próximo, da legalidade, da valoração das Instituições públicas e do bem comum!

Um belo e difícil trabalho para tornar as nossas sociedades mais viveis, mesmo com um menor numero de carros nas ruas e de mercadorias expostas nas vitrines!

Aproveito o ensejo para desejar-te: um FELIZ NATAL e PROSPERO ANO DE 2011 na busca do que é essencial para viver bem, e gozar de uma boa qualidade de vida!

 
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Giuseppe Staconne é italiano. Foi religioso e já trabalhou no Nordeste brasileiro. Graduado em Filosofia e Doutorado em Teologia pela Universidade Urbaniana e Doutorado em Letras pela Università degli Studi di Roma. Foi professor de teologia, história da filosofia e filosofia da religião na UNICAP e no ITER. Autor de vários livros e muitos artigos.