Quinta-feira, 06 de outubro de 2011
 

Inspirado pela Inovação


Nas últimas três décadas nenhuma figura pública esteve mais associada à inovação que Steven Jobs, que morreu ontem depois de um longo tempo enfrentando um câncer no pâncreas. Antes de começar a escrever estas palavras de elogio e reconhecimento a Steven Jobs, pensei começar dizendo que tínhamos o mesmo compromisso com a inovação, embora eu estivesse motivado pelas questões médico-farmacêuticas com fitomedicamentos, farmoquímicos, biotecnológicos biofármacos e ele... Pensei, então que dizer que ele estava motivado pela tecnologia da informação fazia todo sentido, mas era algo limitado, bem limitado, porque estava à frente de uma transformação cultural.

De muitas maneiras tem-se falado de Steven Jobs. Quando ainda era mais novo e já estava à frente de um processo revolucionário que mudou a maneira de trabalhar, interagir com as pessoas e usar o tempo livre, lembro-me que li em uma revista brasileira de negócios que havia uma pressão para que ele deixasse a empresa que fundara com alguns amigos porque ela estava se tornando grande demais para ele e, por assim dizer, ele parecia inquieto demais para estar à frente de uma empresa, sempre querendo inovar, inovar, inovar. E ele, de fato, foi colocado para fora da empresa.

Sobre esta demissão, humilhante, disse que foi um dos melhores momentos da vida dele, pois se viu como iniciante e teve de, de fato, pensar como iniciante. Aqueles que o colocaram para fora acreditavam que o que a Apple havia realizado até ali já era revolução demais. Como se, naqueles anos entre a década de oitenta e a década de noventa do século XX, tudo que fosse possível realizar já estava realizado. Não poucas vezes houve quem pensasse dessa maneira, ao longo da História. Basta dizer que o filósofo grego Aristóteles, em seu tempo, morreu convencido que não havia mais nada para aprender sobre a natureza e o Universo. Na verdade, estava apenas começando.

Na verdade, estava apenas começando o legado de Steven Jobs. Saiu da Apple e criou uma nova empresa que esteve empenhada em criar um computador que significaria uma revolução no modelo de aprendizado, com base em imagens e desenhos em 3D, como podem, hoje, ser visto nos novos filmes da Disney. O computador como tal não saiu, mas toda a tecnologia que foi desenvolvida para ele serve hoje à indústria de entretenimento, à ciência, aos novos programas de computadores.

No livro Complexo de Alexandre, que não me ocorre agora quem o escreveu, Steven Jobs aparece associado a outras figuras que, a exemplo do Imperador grego, toda manhã acordava motivado a vencer e a ocupar mais espaço. Apesar disso parecer obsessivo e dar um ar de incansável, o perfil mostrava, apenas, um homem que parecia integrado a sua vida e, sim, isso sim, movido pela expectativa de que a inovação está na essência do que pode implicar algo de novo para a sociedade. Por isso, quando o chamam de visionário a expressão cai bem. Ele não era um inventor, um pesquisador, no sentido estrito. Percebia a oportunidade de juntar tecnologia e, com isso, fazer surgir novos produtos, tendências, hábitos. Desde o primeiro projeto consagrado, quando juntou tecnologia de interface gráfica da Xerox, com processador Motorola e sistema operacional IBM, Steven aprendeu que uma boa ideia vem de vários lugares onde as boas ideias se propagam.

Anos depois, quando os acionistas da Apple perceberam que uma empresa precisa de inovação que faça diferença, Steven Jobs voltou. Para fazer o que sempre soube fazer: juntar tecnologias e dar a elas uma destinação social e cultural que, em certo sentido, tornam-se hábitos e significam transformação na vida das pessoas. Transformou os telefones móveis, os computadores portáteis, tornou as bibliotecas móveis. Todas as tecnologias que estão associadas ao iPhone, ao iPad estão disponíveis há algum tempo. A capacidade visionária foi juntá-las e oferecê-las sob uma nova ótica tecnológica, o toque, em padrões de sofisticação de design, como objeto de culto e de desejo, fortemente identificado com a jovialidade.

Em geral, as pesquisas estão por aí. Há sempre gente pesquisando. Cada vez mais há gente pesquisando. Nem sempre de forma ordenada. Nem sempre as pesquisas, por serem pesquisas e por parecerem emprestar uma possibilidade, realizam-se. O lugar do visionário é importante na pesquisa, agindo como co-inventor, como preceptor de um espaço social para que a pesquisa associada a outras pesquisas e a fatores sociais, de mercado, e no caso da indústria farmacêutica e farmoquímica, torne-se realidade. Steven Jobs deixa para todos nós a marca de que inovar é olhar para a sociedade e entender que alguma coisa faz falta, alguma coisa precisa e pode ser feita de outra maneira, seguindo outros caminhos, mesmo quando parece que existe alguma coisa que supre a necessidade.

 
*Josimar Henrique é Presidente da Hebron Farmacêutica - www.hebron.com.br e Diretor Temático de Assuntos Parlamentares da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades - ABIFINA - www.abifina.org.br.
 E-mail: presidencia@hebron.com.br.
 
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