Quinhentos e onze anos e o Brasil não conseguiu acabar com a miséria. O Estado brasileiro criou a classe média, o operariado, a elite empresarial do país. Em tese, classes sociais estabelecidas, a arrumação Estado, Sociedade Civil e Mercado cuidariam de dialogar e estabelecer os planos e metas do desenvolvimento econômico do país. Em uma situação na aparência tão bem planejada que duvidaria que o país passaria o Século XX na velocidade das revoluções econômicas e tecnológicas, políticas e sociais, que ora fora chamada de Era dos Extremos, ora de Era dos Direitos.
De fato, o Século XX viveu sob extremos. E viu, das guerras anti-coloniais aos movimentos pelos direitos civis, transformações que tornaram o século, como alguns historiadores costumam dizer, breve. Começou depois da Primeira Guerra e terminou no começo dos anos 90. Nesta era de sete décadas, a humanidade pôde assistir os mais contundentes e demolidores genocídios da História. Na África, entre outros, e, sobretudo, nas colônias da família real belga. Na unificação das repúblicas soviéticas. Na perseguição aos judeus na Europa. E persistiu no enfraquecimento e desmantelamento de culturas comunitárias em todos os continentes, em especial na América.
Também foi o século que mudou a forma de produção, formação de riqueza e acumulação de capital. Um século de descolonização, fortalecimento das nações, dos nacionalismos e da globalização. Da passagem da formação de riqueza e acumulação de capital baseada no controle da produção para a formação de riqueza e acumulação de capital com base no conhecimento, na ciência e na tecnologia. Todos esses acontecimentos elevaram a expectativa de vida de mais e mais pessoas em comparação com séculos passados. As ideias de bem-estar, saúde e educação se disseminaram como modelos de sociedade eficientes.
O Brasil assistiu e participou de todo esse processo. Nem sempre os resultados estiveram compatíveis com as expectativas e promessas anunciadas pelos governantes brasileiros. Mas não é possível negar que a grandeza do país e o alinhamento à cultura ocidental possibilitaram sua permanência entre as dez maiores economias do mundo. Há pelo menos mais dez países que se aproximam e se distanciam do grupo das dez maiores economias do mundo. O Brasil, do ponto de vista político, integra o G-8, um encontro das oito principais nações do mundo que seriam capazes de suportar um alinhamento para conter crises econômicas e políticas. A crise europeia e as dificuldades de recomposição rápida dos Estados Unidos, apenas acentuam um plano de estabilidade para o país.
Quem quer que veja sabe que ainda falta um detalhe. Não é possível mais suportar o anúncio de potência econômica com um contingente de brasileiros miseráveis que varia de 15 a 25 milhões. Para estes, nem o Estado, nem a Sociedade Civil, nem Mercado tem alguma representatividade. Estão na sociedade brasileira e à margem das expectativas, interesses e metas idealizadas como as fundamentais para o país. Já foi dito que nenhum cidadão, por mais alheio e marginalizado na sociedade, está alheio e à margem dos acontecimentos da sociedade. O impacto dos acontecimentos e do desenvolvimento reflete em sua vida de qualquer maneira. Mas parece não ser bem assim para esse contingente brasileiro. Os resultados e a transformação do Brasil não chegam a eles de forma eficiente, a não ser pelas sobras em nada animadoras, como as doenças, a violência,...
Agora, o país conta com um programa para erradicar a miséria. Infelizmente, a miséria não acabou no país, apesar das iniciativas de promoção do desenvolvimento econômico e da geração de empregos e oportunidades. A atuação do Estado é incompatível com seus ganhos em arrecadação, a Sociedade Civil não criou um papel de força e de ação política e o Mercado, por si, não foi capaz de promover a evolução social orientada a um equilíbrio baseado no consumo. Com isso, o Estado entra mais uma vez em cena, no papel de assistir com programas sociais sem prazo definido, até que uma geração seja capaz de, mesmo com pouco, e aproveitando a melhoria em outros segmentos de serviços públicos, desvincular-se das condições de miséria.
Estou certo que o programa Brasil sem Miséria é visto com otimismo e dúvida. Otimismo porque, assim como o controle da inflação, a ideia de Fome Zero e o Bolsa Família, políticas de ordenamento da sociedade são sempre bem-vindas e merecem atenção e colaboração da sociedade. Dúvida porque as propostas e iniciativas costumam ter iniciativas sem ter acabativas e são esmorecidas, esquecidas e suspensas, tanto quanto dimensionadas com bases mais propagandísticas que escoladas na realidade.
Contudo, é fato, quando um programa social é lançado qualquer coisa a mais acontece. Resolve-se? Sim, mas não de todos. Nos anos 60 para 70 tivemos um grande movimento nacional de alfabetização e ainda hoje temos margens sociais inaceitáveis de analfabetismo. Da mesma forma, temos um extenso sistema de unificação da saúde à espera de dias melhores. E um plano de combate à violência e ao crime organizado com base nas tecnologias de informação mais atualizadas do mundo. Que se não forem colocadas em prática, logo não serão mais atualizadas. O arranjo pela soberania do país não está completo. Quinhentos e onze anos e o Brasil não conseguiu entender, ainda, que precisa marcar sua presença com ações que determinem a soberania do país.